quarta-feira, 8 de outubro de 2014

o trânsito interrompido
atrasa o fim de tarde
adia o final do dia
e a fila não flui

o azul vermelho
do giroflex
colore a espera
de rostos cansados
todos já azul-avermelhados

sem de repente
o mar de lata e borracha se abre
o moisés está de farda e tem uma apito
deve-se desviar dessa falta de milagre
pra não bater no imbróglio de ferragens

mas o acelerador quase cessa
lá dentro: a vítima
família de alguém
o sangue acende e apaga
na cadência da ambulância

quando o fluxo retoma
um quase refluxo arde no estômago:
para onde ia?
e o que faria quando chegasse lá?

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

no prédio, um parapeito
subitamente vazio

impacto que não é de plástico

perde-se o rumo e o prumo
quando tudo pouco importa

mas esse pobre paradeiro vira pó

o tempo tenta
e tanto teima até
que nos prescreve

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

quando Morel morreu
sua máquina parou.
era tarde pro eterno,
pura invenção

dias depois
o infinito apodreceu
de tanto esperar

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

um poema que risque
o quadro negro
com um prego enferrujado

um poema que rasgue
a carne e o credo
e arranque todo receio

um poema que grite
de dentro do fosso
da construção abandonada

um poema que ecoe
e cale no peito
da pessoa angustiada

quinta-feira, 4 de setembro de 2014














o mundo real é um ataque de abelhas
daquelas que mataram o macaulay culkin no filme
(você se lembra? passava de tarde,
não recebíamos e-mails, ônibus só final de semana,
a vida tinha cheiro só de sofá e nescau)

e a literatura é o lago
em que a gente se joga depois de tanto correr
mesmo que não seja verão,
mesmo que a vida seja meio fria e de verdade.

e então lá do fundo do lago-linguagem,
entre o dançar das distorções das miragens,
se olharmos pra cima pra trás pra fora pro céu:
dá pra ver o macaulay culkin morrendo de mentira
dá pra ver o macaulay culkin morrendo de verdade

dessa trincheira líquida,
as abelhas assassinas refratadas
ganham contornos monstruosos e voam seu voo aleatório.
não podem te atacar, mas também não vão embora
(por isso convém reaprender a respirar)

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

a tristeza é um vazio manso

que não teme se tornar intenso
e que teima em ser imenso

deixar-se ir

partir ao meio
meio de partir

terça-feira, 22 de julho de 2014

o fim de tarde se choca
contra muros feitos de prédios
e quebra o dia da cidade
em pequenos pedaços

por entre as frestas
de aço pássaro cimento
atravessam retalhos
de uma luz antiga
já cheia de ontens

os estilhaços de sombras
derretem até virar noite,
o dia agoniza e dá seu
último suspiro
sob o poste retardatário
de uma rua quase vazia

segunda-feira, 21 de julho de 2014

na colisão dos lábios
a previsibilidade
e a arquitetura do beijo

ao cavar solidões até o fundo,
sentir sob as unhas
os restos de um amor imundo

terça-feira, 10 de junho de 2014

o tempo e as cartelas de comprimidos
aliviavam um pouco,
ela não podia negar.
dia desses se pegou sorrindo
com um Quintana no colo,
há quanto tempo isso não acontecia?
mas foi um sorriso assim meio cinza,
de poesia que vai amontoando na garganta.
uma voz sempre:
como se atreve seguir adiante?

era assim,
quando estava prestes a esquecer
alguém puxava a cortina do mundo
e a vida ardia nos olhos

lembrou de uma reunião no trabalho,
foi uma dessas bobagens que nos machucam
às 11h de uma terça-feira difícil,
mas que não vertem sangue:
quero os relatórios de 1994, disseram
a conversa seguiu, mas o som sumiu
a frase não desapareceu,
nem se misturou à fumaça dos cigarros.
surgiu por escrito em sua cabeça,
milnovencentosenoventaenove
entrou por um ouvido
e nunca mais saiu pelo outro.
esse foi o ano que meu filho.., ela pensou
ok, ela disse em voz alta.
depois foram almoçar
e ela quase não sorriu

domingo, 8 de junho de 2014

num apartamento semi-abandonado
no centro da cidade
há um poema arranhado
numa de suas paredes mofadas

chove pra caralho em Curitiba,
você sabe
mas nessas noites que precedem
a geada
o céu dá um tempo e
é possível ver os versos
por entre a dança
das cortinas imundas

é um poema triste
como todos os outros
que falam sobre solidão.
é até meio entediante
para falar a verdade

o que faz a gente
desabar por dentro,
são aquelas lascas
de unha no chão
na fotografia,
a vida parada
feito domingo

uma tristeza
bem objetiva
em moldura
definida pelo
amarelar do tempo

todo o entorno
é agora eterno
e não esconde
um contentamento:

do lado de fora das horas,
um estado permanente,
de imaculado silêncio
e, principalmente,
a salvo de futuro

quarta-feira, 30 de abril de 2014

mais quantos 15 minutos?

rezo para que o café dure
mais do que minha angústia,
mas os céus andam surdos
por esses dias tão doentes,

então espero

bebo gelado mesmo,
trancando a respiração,
sempre na esperança
de que o mundo desista
antes de mim

sexta-feira, 28 de março de 2014

a poesia
sempre vira pó
alheia ao desejo de momento eterno,
com contorno de fotografia,
porque o mundo não fica imóvel
mesmo que quase não respire

pois é tão não-natural
parar pra pose
prum retrato
meio que teatro verbal

daqui de mim
não dá pra ver
quem é você

quando o limite
do que somos
já não atravessa
essas sombras
e passa a sofrer
de escuridões

pra que palavras
se elas não dizem nada?

quinta-feira, 27 de março de 2014

se renda
se refaça

mas repare
que no fundo,
é esse o ruído
do mundo:

rasgar o tempo
sem resgatar
nenhum momento

pois reza o
coração rouco:

sua raiz
resguarda
sua relíquia
mas também
sua ruína

o sonho de quem desistiu
virou pôr do sol
mas quase ninguém viu

quarta-feira, 19 de março de 2014

no primeiro beijo
a gênese
da futura saudade
e as entrelinhas
do próximo desastre

nasce com medo, o amor
nem bem toca a luz
e já teme a escuridão,
pois sabe ser estúpida
sua fome de eternidade

na breve separação dos lábios
um hiato onde cabem dois mundos
e também mundo nenhum

um poema não consegue
medir esse breve vazio,
pois as palavras
são poucas e mal
preenchem um coração

mas em certas manhãs, o dia
nasce com a brutalidade
de uma guilhotina

em recomeços que rasgam a carne

e os amores se tornam tão pálidos
que mal os enxergamos quando
eles resolvem saltar das pontes
nesses meses ensolarados
seu sofrimento
não vem de mim

vem de você ter
que ser você
sempre, até o fim

sexta-feira, 7 de março de 2014

sinto pena de pianista de shopping
parece um esforço tão triste esse
de atravessar belezas por entre
talheres, refrigerantes e ouvidos distraídos

vez ou outra
olhares cúmplices agradecem
emocionados ou educados, lá de longe
vez ou outra
atenção proprietário do Clio placa
AVS7570 compareça ao estacionamento

batuque na mesa,
essa não é aquela música lá daquele cantor?
batuque na mesa
tenho essa no celular, tem outra que baixei que...

o pianista fecha os olhos,
imagina um teatro em silêncio
e toca sua música favorita

quando afastam o milkshake, alguém repara o palco:
um piano fechado
uma banqueta vazia

onde que paga o estacionamento?

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

domingo, 16 de fevereiro de 2014

sob esse véu
de beleza linguística,
em meio a essa melancolia
de plástico,
os ossos dos teus versos
não escondem a fratura:
tua poesia
é puro desamparo

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

certa manhã encontraram um corpo
bem ali no chão do escritório.

estava de terno e havia muito sangue.
tiro na cabeça, ele mesmo.

caído no canto,
o cadáver não chegava a atrapalhar a circulação,
mas depois de uma troca de e-mails
todos concordaram que aquele tom de vermelho
era muito desagradável aos olhos

então os estagiários foram incubidos
de cobri-lo com papel rascunho
foram necessários dois ou três relatórios
de balancetes anuais

"mas e o cheiro?" disseram na fila do cartão ponto.

então na segunda-feira seguinte
pelo menos cinco colaboradores
foram trabalhar usando máscaras.
depois virou moda e hoje eles já nem reparam
da janela do prédio
vejo a ave e ele me vê,
suja de poluição,
bica um resto qualquer
no telhado imundo de um restaurante.

eu na moldura da janela
e ela me olha
me olha não com olhos de ameaça
nem de caça
e nem com olhos de medo
como se ocultasse um segredo,
o sol cega um pouco,
pode ser que sinta simples indiferença,
mas parece pena

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

minha infância tem a cor de uma araucária
e o cheiro de uma cidade miúda
de quando corríamos sob os braços abertos dos pinheiros,
e de longe víamos a ameaça da refinaria:
"um dia essa porra vai explodir"

então tudo seria diferente
abandonaríamos quem teríamos de ser

tinha geada de não sentir os dedos
e futebol com bola de capotão na rua de anti-pó.
eu contava os paralelepípedos da Miguel Bertolino,
subindo para o centro,
enquanto sonhava com novas cidades e novos símbolos
para além do Paraná

mas nunca fui pra longe do Rio Iguaçu,
parece que minha raiz
estará sempre sob
os olhos desatentos da Paróquia Nossa Senhora dos Remédios
ou sob o lodo do lago no Parque Cachoeira

Araucária está em mim
e nunca tentei evitar,
seria tão inútil quanto
procurar uma gralha azul

mas às vezes durante a madrugada
entre o ir e vir do apito
do guardinha que faz a segurança do bairro
me pego na janela
a observar as luzes da refinaria...

um dia, quem sabe

domingo, 9 de fevereiro de 2014

o poça d'água
é o acúmulo de céu
desabado

a recusa do solo,
que se nega a absorver
altitudes

a prova líquida
de que os dois estão
em comum desacordo
naquela época bebíamos até
o sábado acabar, sufocando
as possibilidades da madrugada
com nossos corpos tão tristes
iluminados pela luz da
geladeira aberta, enquanto
preenchíamos a insônia
fazendo planos sobre um
futuro feliz cheio de poesias
que jamais seriam escritas

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

acordar é uma forma de morrer
sem se entregar à escuridão
é um deixar de ser em movimento
disfarçado de luz e lucidez

a gente acaba e quase não repara

mas
existe um anzol atravessando nossa bochecha
ele raspa a porcelana da xícara de café
e faz um atrito irritante
é possível até sentir o cheiro de carne podre
que parece vir de animais mortos escondidos pela casa

olhamos para o céu e vemos apenas uma rede
feita com fios de ouro puro
mas ela não nos protege
pois logo percebemos que os pássaros não voam,
apenas se desvencilham de Deus

e nessa hora, o melhor a fazer
dependendo do adiantado da hora
é trancar a respiração
quem sabe acender um cigarro ou beber a primeira dose
e fingir que faz sentido

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

meu sonho
é a ilusão de outro
vendida
numa embalagem
de plástico
(prática e atrativa e reciclável e em vários tamanhos,
afinal o desespero de sentir vazio
é tanto e tanto e tanto que tem pra todos
os desgostos)

tem na prateleira
é só pegar
mas só
se você puder pagar

quando digo adeus
e olho para trás
(porque sempre olharemos
mesmo que)
não é minha cidade
que vejo
não é você
acenando em forma de saudade
não é um pôr de sol
de cinema

quando olho pra trás
o que vejo
são apenas pessoas distraídas
com seus afazeres
num dia qualquer
que teima em não terminar

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

o vento é uma saudade em forma de ar
faz festa nos cabelos feito mãos de avó
feche os olhos e volte para o seu lar